A população de jumentos no Brasil sofreu uma redução drástica de 94% entre 1999 e 2024, segundo levantamento da organização The Donkey Sanctuary. Os dados, reunidos a partir de fontes oficiais como o IBGE, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e o sistema Agrostat do Ministério da Agricultura, apontam que o número de jumentos caiu de 1,37 milhão para aproximadamente 78 mil em pouco mais de duas décadas. Isso significa que, hoje, o país tem apenas seis jumentos para cada cem que existiam na década de 1990.
A principal causa para a redução populacional é o abate intensivo do animal, especialmente na Bahia, onde três frigoríficos possuem autorização do Serviço de Inspeção Federal (SIF) para comercialização da carne e da pele. Apenas naquele estado, cerca de 248 mil jumentos foram abatidos entre 2018 e 2024. As peles são majoritariamente exportadas para a China, onde são utilizadas na produção de ejiao, um colágeno obtido da pele do animal, muito valorizado na medicina tradicional chinesa.
Outro fator apontado por especialistas é o abandono dos jumentos em regiões rurais. Com a modernização do campo e o uso de veículos motorizados, o jumento perdeu a função tradicional no transporte de cargas e passou a ser visto como um animal obsoleto. Muitos foram soltos ou deixados à própria sorte, aumentando a exposição à captura ilegal e ao abate clandestino.
O desaparecimento do jumento não representa apenas uma perda ambiental, mas também cultural. O animal tem papel histórico nas atividades agrícolas, especialmente no Nordeste, e faz parte da identidade rural brasileira. O desaparecimento silencioso dessa espécie, alertam entidades de proteção animal, pode ocorrer antes que haja uma resposta concreta do poder público.
Diante do cenário, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 2.387/2022, que propõe a proibição do abate de jumentos em todo o território nacional. Na Bahia, outro projeto semelhante, o PL nº 24.465/2022, já foi aprovado em comissão e aguarda votação em plenário. Ambas as propostas visam conter o abate e criar mecanismos de proteção ao animal.
Entre os dias 26 e 28 de junho, especialistas, pesquisadores e ativistas estão reunidos no 3º Workshop Internacional “Jumentos no Brasil: Um Futuro Sustentável”, realizado na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Durante o evento, foi lançada oficialmente no Brasil a campanha global “Stop The Slaughter” (Parem o Abate), que busca conscientizar autoridades e sociedade sobre a necessidade urgente de preservação dos jumentos no país.
Pesquisadores como Roberto Arruda, engenheiro agrônomo e doutor pela USP, defendem o incentivo à produção de colágeno por fermentação de precisão como alternativa ao uso de peles de jumentos, preservando a espécie sem interromper a cadeia produtiva.
Caso o ritmo atual de exploração e abandono se mantenha, especialistas estimam que os jumentos poderão desaparecer do Brasil nas próximas décadas, levando consigo uma parte significativa do patrimônio histórico e social do país.



