06/03/2026
Mauricio Marangoni

Heróis de uma geração

Dia desses assisti a um vídeo que me foi enviado num grupo de amigos. Mostrava coisas que nós, os nascidos nos anos 1960/1980 vivemos e a geração pós 2000 nem imagina. Por óbvio, um vídeo bem nostálgico, mas que me fez refletir se realmente éramos ou não mais felizes que os jovens de hoje.

Talvez discutir felicidade, o saber viver, seja muito subjetivo, e entrar com muita profundidade nesse tema talvez levaria o nada ao lugar algum. Nossa infância e adolescência, sem qualquer acesso a tecnologia, nos fez mais próximos das pessoas, criamos amizades, curtimos o coleguismo da escola; brigávamos e chorávamos também; nos divertíamos muito mais com bem menos.

O lazer girava em torno da imaginação, acesso único e irrestrito que tínhamos para nos divertir. Ouso dizer – e penso ser assertativa minha afirmação – pudemos viver e assistimos a transição dos tempos, do analógico ao digital. E com raras exceções, tentamos nos inserir nessa nova fase, por mais que soframos pela inexperiência tecnológica.

Mostrar uma máquina de escrever a um jovem nascido nos últimos vinte ou trinta anos, e dizer a ele que soubemos manusear aquela engenhoca pesadíssima, digitando nela com os dez dedos das mãos, com certeza não vamos fazê-lo acreditar. Sequer saberá se sentar diante de uma dessas, sendo que a máquina de escrever era nosso computador. O mesmo com os telefones de disco, quando tínhamos que ligar na central para pedir uma ligação para a vizinha cidade de Rio Claro, por exemplo. Isso, quando sua casa tinha telefone – na minha somente passamos a ter uma linha em 1980, a preço de ouro. Solução: meus pais tinham que ir até a esquina da Barão de Arary com a Júlio Mesquita, e numa cabine da companhia telefônica, aguardavam a operadora completar a chamada para onde se desejava falar… e podia demorar horas!

Fitas k-7, o início da frequência modulada – as famosas rádios FM, onde curtíamos as músicas de qualidade que tivemos o privilégio de crescer com elas, nos apaixonar, interagir com pessoas… que tempo bom. Venho falar disso por algumas cenas que me deparei essa semana. Por duas oportunidades, em locais públicos, crianças ainda na tenra idade, dominando com maestria aparelhos celulares ou tablets, com uma desenvoltura impecável.

Outra situação, andando por uma calçada, a criança ainda no carrinho empurrado por sua mãe, entrosada com a tecnologia, vendo algo no aparelho celular – e sabe-se lá o que está vendo – sem notar o seu redor, não apreciando o entorno daquele passeio, que para sua mãe pode até ser rotineiro ou repetitivo, mas certamente para a criança daquela idade, o passear pelas calçadas da cidade traria um aprendizado através das sensações, imagens e sons a que se sujeita.

Cadê os livros, as brincadeiras e interações pessoais? Como serão essas pessoas nesse mundo onde tudo passa tão mais rápido? Não costumo usar a frase ‘no meu tempo era assim ou assado’; isso porque o tempo é o que vivemos. Mas convenhamos, a nós nascidos nos anos 1960/80 não podemos negar que tínhamos e usufruíamos de mais tempo que hoje.

A tecnologia por certo nos evoluiu em muitos campos, mas nos fez viver de forma mais veloz, menos pessoal, com menor empatia entre as pessoas, com mais frieza e impessoalidade. Passamos a ser escravos numa vida que está passando muito rapidamente. Talvez haja pessoas que ainda valorizem hábitos passados, aqueles que vivemos em nossa infância. Mas essas pessoas são uma grande minoria, sufocadas pela tendência inexorável da evolução.

Às vésperas de receber uma criança na família, já busco estudar estratégias de inseri-la na modernidade, na tecnologia – necessárias para sobreviver hoje em dia, mas mesclar a ela, acesso a brincadeiras, livros e hábitos que nos ajudou a chegar onde chegamos, com o domínio do analógico aplicado às tecnologias que nos estão a todo canto disponíveis.

Que as novas gerações que vem chegando, as novas vidas daqui por diante, tenham oportunidade de saber e conhecer como fomos forjados e nos tornamos heroicamente o que somos. Vencedores da uma transição histórica!

Rádio Clube • 101,7 FM 🔴 AO VIVO
RCA1
Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.