A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, após invadir o recinto de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, expôs uma trajetória marcada por abandono familiar, transtornos psiquiátricos e falhas sucessivas das instituições que deveriam garantir sua proteção. O ataque ocorreu no domingo (30), quando o jovem escalou uma estrutura de mais de seis metros, ultrapassou grades de segurança e entrou no espaço onde o animal estava. O ataque foi imediato e fatal.
Gerson tinha diagnóstico de esquizofrenia e apresentava comprometimento cognitivo, segundo profissionais que acompanharam sua vida. A vulnerabilidade começou ainda na infância, quando foi separado da mãe — também portadora de esquizofrenia — após decisão judicial que destituiu a guarda materna. Ele e os quatro irmãos foram acolhidos por instituições, mas, ao contrário dos demais, não conseguiu ser adotado. Relatos indicam que ele era tratado como um caso difícil e acabou ficando para trás no processo de adoção.
Aos 10 anos, foi encontrado caminhando sozinho por uma rodovia, episódio que marcou definitivamente sua entrada na rede de proteção social. Mesmo assim, passou grande parte da vida entre abrigos, acompanhamentos intermitentes e passagens por unidades socioeducativas. O diagnóstico formal de deficiência intelectual e transtorno de conduta só foi emitido muitos anos depois, já na fase adulta, após sucessivas crises e comportamentos de risco.
Conselheiros tutelares afirmam que Gerson alimentava desde cedo o sonho de “domar leões na África”, um desejo repetido ao longo da vida e que já o havia levado a episódios perigosos, como tentar entrar clandestinamente no trem de pouso de um avião. No dia do ataque, ele mais uma vez ultrapassou barreiras de segurança para chegar até o animal, e a polícia investiga se a invasão foi motivada por delírios associados ao transtorno psiquiátrico.
O zoológico informou que a leoa, chamada Leona, não será sacrificada e segue sob observação devido ao estresse do episódio. A morte reacendeu questionamentos sobre a segurança do parque e, principalmente, sobre a falta de políticas públicas eficazes para garantir acompanhamento contínuo a pessoas em sofrimento mental e vivendo em extrema vulnerabilidade.
A trajetória de Gerson, marcada por abandono, negligência e diagnóstico tardio, se transforma agora em símbolo de um debate mais amplo: o de como diferentes instituições falharam ao longo de anos em oferecer tratamento adequado, proteção e dignidade a alguém que passou praticamente toda a vida sob responsabilidade do Estado.



