Confesso que não gostaria de abordar o tema da violência, reflexo de uma operação policial ocorrida no Rio esta semana. O assunto é muito complexo, além de antigo. Tudo teve inicio no final do século XIX quando criou-se uma política pública de higienização dos cortiços no Rio de Janeiro, ‘expulsando’ as pessoas menos favorecidas que acabaram por subir os morros.
Tivemos também o início do hoje chamado ‘Comando Vermelho’ nos idos dos anos 1970. Houve historicamente uma discriminação sócio-econômica contra os menos favorecidos, que ultrapassa séculos. Mas o fato é um só – vivemos num país que trava uma guerra contra o crime organizado já há décadas, guerra essa que não se enfrenta com palavras bonitas, pombas brancas ou flores. Não se pode enfrentar esse panorama de terror com carinho.
Recente discussão acerca de se reconhecer facções criminosas como ‘grupos terroristas’ é muito complexa; ao mesmo tempo que pode parecer uma solução, de outro lado poderá permitir a ingerência de outros países dentro do nosso país (vide recentes intervenções dos Estados Unidos em países latino americanos sob o pretexto de combater o ‘crime organizado’). Interessante – senão tão importante – é entender e perceber que os narcotraficantes europeus e norte-americanos não são tratados como terroristas (vide Itália, França, Espanha, Estados Unidos, etc.); só na América Latina é que se busca justificar uma ação mais incisiva de combate ao tráfico, sob o argumento de lidarmos com ‘grupos terroristas’ – veja a complexidade do tema.
Sobre o caso desta semana, é claro que o narcotraficante não mora nem na Penha nem no Alemão, mas por certo vive em Ipanema, Barra e outros locais muito melhores, investindo o ganho do crime na Faria Lima. O problema das organizações criminosas (gestora do tráfico e outras atividades ilícitas) é seríssimo, tanto que são elas quem mantêm e sustentam já há algum tempo, estruturas e tentáculos nos poderes constituídos: juízes, promotores, advogados, policiais, políticos, contraventores, jornalistas, enfim, toda uma gama de setores, que curiosamente podem ser vistos em camarotes dos carnavais da Sapucaí, escancaradamente, juntos e misturados, brindando e comemorando.
A questão da segurança pública é do Estado, enquanto ente federativo. E o Estado deve ter políticas de cooperação com a União. Mas o que se vê, em especial no caso desta semana, é a ausência do Estado, ausência esta que deixou espaço para a ação criminosa atender os menos favorecidos. E cabe aos entes federativos se fazer presentes nas localidades menos favorecidas, com educação, saúde, segurança, dando condições de vida digna a todos.
Mortes nunca devem ser comemoradas; mas o que se assiste, agora, é um show de politicagem, um jogo de empurra entre poderes, sem se assumir responsabilidades ou sem dar solução ao caso concreto. Uns buscam imputar à polícia esse ônus, com o que eu particularmente não concordo Nossas forças de segurança agem quando devem agir; pode haver excessos, claro; mas se comprovado qualquer excesso, que se apure e se puna, dentro da lei.
Manifesto minha admiração e respeito aos policiais que enfrentam o crime diuturnamente, com força e fé. Vale lembrar que vivemos num país em que há dois estados: o Estado do Bem e o Estado do Mal. Quero e prefiro o Estado do Bem, da ordem, da paz, da disciplina, do progresso. É mais do que premente rediscutirmos as leis, o sistema prisional, a forma de cumprimento de penas; chega de proteger bandido – temos que proteger o cidadão de bem, sempre. E que ele saiba escolher o lado que devemos ficar.



