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Mauricio Marangoni

Ranking vergonhoso

Vimos dia desses um novo ranking das melhores universidades do mundo, e dentre as dez primeiras, nove gravitaram entre Estados Unidos e Grã Bretanha. Me fez lembrar os tempos distantes em que víamos universidades brasileiras – especificamente a USP, o ícone do ensino público de qualidade – dentre as melhores colocadas.

Hoje a Universidade de São Paulo agoniza o 108º lugar, muito distante de classificações de outrora. Mas não vamos imputar a esse ou aquele governo – federal ou estadual – a má qualidade do ensino superior no país.

Primeiramente, temos que nos lembrar que o surgimento e valorização da educação pública no Brasil surge somente no século XIX, por influência das grandes transformações sociais, econômicas e tecnológicas mundiais da época; somado a isso, o emergir do trabalho livre fomentou o surgimento das grandes escolas de formação superior em grandes centros mundo afora.

Com nossa independência, propagou-se a idéia de criação de uma classe intelectualizada, que viesse a desenvolver a política e economia daqui. Na minha área, o Direito, em 1827 as precursoras foram a Faculdade de Direito de Recife e a de São Paulo, tendo surgido também faculdades de medicina (Bahia) e um sem fim delas já no século XX. Mas os tempos mudaram, e em nosso país, em especial no período da redemocratização recente, as condições da educação foram desvirtuadas.

Claro que o acesso às grandes universidades sempre se mostrou limitado e elitista – não era qualquer um que ingressava numa faculdade pública de qualidade sem influência econômica e social. Grande parcela da população brasileira ficou de fora desse estreito canal de acesso, o que fez gerar projetos de criação e acesso ao estudo mais democratizado e amplo.

Ao invés de investir no ensino público de qualidade, melhorando a formação dos professores e a estrutura universitária, os governos buscaram transferir à iniciativa privada o acesso à educação superior. Isso foi exigido frente ao crescimento populacional, a evolução tecnológica e o desenvolvimento geral. Com orçamentos cada vez mais pífios, os governos deixaram proliferar no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 inúmeros cursos superiores, através de centros universitários e universidades, que passaram a ser o corredor de acesso do brasileiro ao diploma de nível superior.

Paralelo a isso, fizeram surgir diversos programas de financiamento estimulando esse acesso, sem se preocupar com a perda de qualidade, exigências acadêmicas menores e até mesmo cortes em conteúdos de disciplinas. As fórmulas de crédito estudantil criadas visando a expansão do ensino privado frente à mingua do ensino público virou um grande negócio – para quem detinha esses projetos. Ao mesmo tempo que criaram políticas de acesso universitário na via privada, deixaram de investir adequadamente nas universidades públicas.

Mesmo com o advento de cotas de inserção étnica e racial, bem como em critérios econômico-sociais, a falta de investimentos no ensino superior público acabou por sucatear projetos e acesso a grandes universidades públicas, o que é lamentável. Ainda temos sido contagiados no meio acadêmico – em especial nas grandes universidades públicas – pela polarização política e ideológica, o que em muitos casos, até mesmo aos que conseguem vaga em cursos em faculdades públicas, preferem declinar do ingresso naquilo que muitas vezes se transformou num grupo de manifestação político partidária, sem qualquer fomento educacional e cultural.

O ranking divulgado há alguns dias, onde outros polos universitários como a Unicamp estão ainda em situações bem piores que a Universidade de São Paulo, é vergonhoso a todos nós. Hoje temos o fomento privado em busca do diploma, onde grande parte dos acadêmicos financiam seus cursos para pagar quando formados – se efetivamente tiverem colocação profissional – enquanto governos com intuito meramente politiqueiros, prometem isentar essas dívidas, que por certo serão pagas por todo o restante da população, ou seja, nós.

Os recebimentos pelos investidores dos cursos privados é certo. O investimento nos cursos públicos, é cada vez menor, caminhando para a migalha. Assim, entre expansão da área privada e o desmonte da estrutura pública, a certeza que temos é que a qualidade do ensino superior no país despencou vertiginosamente, a números que a todos envergonha.

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