Mauricio Marangoni

Menos é mais

Saí uns dias para descansar. Conheci uma belíssima capital do nordeste, João Pessoa, na Paraíba. Há tempos planejava conhecer aquele lugar, tanto pelas belezas naturais, comidas típicas e especialmente por ser o estado onde viveu o grande Ariano Suassuna. Curto demais aquele cara, que perdemos há alguns anos.

Além da região de natureza e passeios praianos, comida de qualidade, variada, típica, e acima de tudo barata (se comparada com o que pagamos no litoral paulista), o que me chamou a atenção foi a cordialidade e amizade do povo paraibano. Miséria propriamente vi pouco, em que pese ter me instalado na capital. Os casos que vi foram casos que se vê em grandes cidades brasileiras: alguns pedintes, outros sem teto, enfim, coisas do país.

Mas uma coisa me chamou demais a atenção: os pequenos comerciantes, vendedores ambulantes, artesãos, atendentes de praia. Pessoas comuns, sofridas no semblante pela questão climática e pela necessidade do trabalho sol a sol. Mas sempre estampando no rosto um sorriso comum a todas. Uma alegria ao se comunicar, ao buscar ganhar seu pão se mostrando simpáticos, atenciosos, cordiais no tratamento.

Realmente o povo daquele lugar me conquistou pela sua suavidade na lida diária, mesmo nas formas mais rústicas e informais que buscam ganhar a vida. Todos sabemos que o progresso de nosso estado e região, muita das vezes – senão com exclusividade – se deu pela mão-de-obra do nordestino que aqui veio já a partir da metade do século passado, e com sua força de vontade, força de trabalho, e fé, para ajudar de forma determinante no nosso progresso e evolução.

Num paralelo ao que vi in loco, voltando do meu passeio me deparei, numa dessas manhãs, com um noticiário de um telejornal de uma grande emissora, que transmitia ao vivo, o caos (não raro) no metrô da nossa capital. E a grande maioria dos vitimados por esse caos, era justamente o povo que do nordeste veio para ganhar a vida em nossa São Paulo e nos progredir. Parei, meditei… a que custo essa gente hoje, vive aqui e para que vive aqui ?

O progresso que temos já veio deles através do trabalho e empenho que aqui deixaram. Mas vivemos hoje num momento histórico muito peculiar, onde a tecnologia, a informática, acabaram por desprezar grande parte da força de trabalho, substituída por máquinas e computadores.

Vendo aquela situação aflitiva de inúmeros trabalhadores se esmagando como sardinhas em latas num vagão de metrô, me veio a lembrança daquelas outras pessoas que convivi pelas ruas na minha curta viagem ao nordeste, onde seu semblante demonstrava uma felicidade longe de ser falsa ou dissimulada. Dessa comparação, passei a questionar a motivação de se ficar numa metrópole que já não dá mais ao cidadão comum, qualidade mínima de condições de vida dignas e razoáveis. As oportunidades por certo aqui são maiores que lá, ou ao menos foram num momento pretérito.

Alguns dirão ainda, que os que para cá vieram, constituíram família, conheceram amores, passaram a ter seu lar, filhos e amigos. Mas o meu devaneio me fez questionar se aqueles que lá ficaram, mesmo sob o sol escaldante, que surge na Ponta do Seixas – o extremo oriental das américas – às 4h da madrugada nossa, não vivem mais, melhor e com menos, fazendo valer a pena a escolha em ficar naquele lugar. Difícil julgarmos ou apontarmos quem acertou em vir para cá e ficar, e os que ficaram lá. Mas resumo minha impressão com aquilo que me cativou naquele povo: viver com menos, é mais!

Os que ficaram naquele lugar extremamente iluminado, em todos os sentidos naturais, formando um povo dócil e amistoso, se contrastados com seus conterrâneos esmagados na selva de pedra que o progresso e a busca de um sonho pessoal impõe a eles, me fazem concluir que os primeiros fizeram a escolha acertada. Ótimo final de semana a todos!

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