Os tempos são de fato e de direito bem nebulosos no Brasil. Às vezes tenho sido até um pouco ácido a respeito de tudo o que vemos diariamente na grande imprensa. Desde desvio de verbas para educação e merenda escolar, passando pela notória e trágica situação de alunos e professores país afora, sem valorização do ensino, sem estímulo e depreciação da carreira do magistério. Até mesmo escândalo no desvio de comida para alunos – que em São Paulo, vale lembrar, passou impune mesmo tendo envolvimento do atual vice-presidente e um deputado (pasme, promotor de justiça) na tramoia do leite das crianças.
Mas vamos lá, temos que falar do mensalão, hoje peça decorativa da ´estória´ do país; tivemos escândalos com respiradores na covid, vacinas, desvio de jóias, etc. Mais recentemente esses escândalos envolvendo lesões aos aposentados, banco master, membros da política nacional em todas as esferas, senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores. Vimos ainda o envolvimento do filho do presidente e seu tio – presidente do sindicato que desviou mais de seiscentos milhões de reais – e nada se fala e nada se faz, todos impunes.
Aliás, falando em impunidade, importante lembrar que já estamos no 26º ano do século XXI, sendo que quase vinte desses anos, estamos sob a batuta de uma mesma banda política, que dita aos quatro ventos que ainda vai melhorar. O ápice da bandalheira tem sido visto com o envolvimento do nosso supremo, a última esperança, o último baluarte para se buscar ou ver a justiça… um órgão no qual se esperava a concreção da justiça, envolvido e misturado a tudo de ruim que tem sido feito neste Brasil.
Lamentável ver ministros envolvidos até o pescoço, senão através de esposas e filhos, pessoalmente como partícipes de uma covardia perpetrada contra aposentados e o cidadão brasileiro em geral, que por certo é quem vai pagar toda essa conta. Sim, nós pagaremos por isso, porque tudo o que se desviou e roubou, dificilmente será devolvido a quem de direito (ao menos é o que tudo indica, mais pizza no ar).
Mas há algo desagradável a ser dito sobre tudo isso, mesmo que doloroso: nós também somos culpados por isso, estimulamos ou fomentamos tudo isso, direta ou indiretamente! Gostamos de apontar todos esses problemas cotidianos a nossos governantes, nossos políticos, nossos representantes. Sim, eles têm parcela significativa de culpa.
E sobre nossa postura enquanto sociedade ? Temos sido permissivos e tolerantes com pequenos furtos, com pequenas infrações. Muitos de nós praticam violação de embalagens em mercados, adulteram preços em prateleiras e cardápios, buscando uma vantagem. Somos conhecidos mundialmente pela lei de gerson, onde só que quer vantagem.
A culpa está em nossos governantes ? Sim, também está ! Mas está também no dia-a-dia de todos nós, em especial naqueles que infelizmente normalizam sonegação, infração, ilegalidades, imoralidades. Desde o hábito de pequenos golpes ou sonegação de tributos, passando por infrações simples de trânsito – desrespeito a faixa de pedestre, sinalização de velocidade, som estridente de veículos em geral, e outros tantos – até mesmo oferta e recebimento de propinas em serviços públicos.
A contratação de pessoas ou a sujeição delas a trabalhar sem registro, visando manter benefícios assistenciais, ou deixar de recolher tributos advindos do contrato formal, também não deixa de ser um ato negativo nosso, da nossa sociedade. Nossa sociedade acaba por ver nisso tudo, uma normalidade, e quer cobrar somente das classes que nos governam a conduta de retidão.
Realmente, precisamos de uma reforma em nossa estrutura social, não só uma reforma legal, trabalhista, tributária, política, mas também uma reforma social, que vise reparar princípios e valores básicos, para que somado a uma educação de nível considerável (fator este que assusta os políticos), possa trazer um progresso e um bem estar geral. Temos culpa, bem como tem culpa todo o sistema que nos gere, governa e administra.
Precisamos também de uma reforma individual e coletiva. Fora isso, ficaremos a mesmice, lembrando que um quarto do século já se foi.


