Nunca se produziu tanta energia elétrica no Brasil, ainda assim a conta é cada vez mais alta para o consumidor.
Ainda que essa afirmação seja contraditória – à luz da lei da oferta e demanda –, é uma realidade: afinal, segundo o IPCA, o valor da energia elétrica residencial acumula alta de quase 17%.
A justificativa é técnica: durante o dia, as usinas solares domiciliares – sistemas fotovoltaicos – devolvem energia em excesso à rede elétrica e, para que o sistema não fique sobrecarregado, as grandes usinas interrompem o fornecimento de energia elétrico; pela noite, as grandes usinas devem voltar a ser ligadas, porque o consumo aumenta e as usinas domiciliares não são capazes de produzir energia suficiente.
As distribuidoras utilizam, pela noite, energia gerada em usinas térmicas altamente poluentes e caras.
Ao final, a culpa é do consumidor que paga três vezes: a primeira pela instalação das usinas fotovoltaicas, a segunda pelo aumento da tarifa e a terceira pelos danos ambientais e de saúde que essas usinas ultrapassadas potencialmente causam.
No entanto, duas questões devem ser colocadas. Em primeiro lugar, se o problema é o religamento da distribuição de energia pela noite, por que não se investe em estrutura para que a rede elétrica suporte a alta oferta de energia elétrica? Em segundo lugar, por que ao invés de usinas térmicas, não há uma rede de geração de energia sustentável para alimentar a rede elétrica pela noite? Afinal, o Brasil possui mais de oito mil quilômetros de costa (bem distribuídos), no qual, até onde se sabe, o vento não cessa pela noite. Ademais, a gravidade também funciona pela noite e, portanto, energia pode ser gerada nas usinas hidrelétricas. No limite, a energia nuclear poderia ser opção.
A resposta para esse último questionamento pode ser mais evidente do que parece.
Basta estudarmos a Medida Provisória 1304 de relatoria do Senador Eduardo Braga (MDB/AM). A medida avança para: (1) prorrogar incentivos às usinas movidas a Carvão no Sul do País; e (2) autoriza a comercialização de energia elétrica a partir do Gás Natural.
Pasmem: a MP autoriza que os valores das obras de infraestrutura para a construção de gasoduto sejam embutidos nas tarifas repassadas aos consumidores. Pasmem novamente: em 2023, os irmãos Batista – aqueles que foram presos em 2017 – compraram usinas movidas a Carvão no Rio Grande do Sul.
No país berço da COP30, o carvão e o gás natural avançam para ser matriz de fonte energética, em favor dos interesses privados. É patético que a culpa seja atribuída ao cidadão que optou por ter algumas placas sobre suas residências.


