O brasileiro pena o ano todo; aliás, pena a vida toda. Em especial nesses tempos sombrios, sobrar dinheiro no final do mês parece ser coisa rara, verdadeiro artigo de luxo. Há quem diga que trabalhamos praticamente seis meses no ano somente para pagar tributos. E o que sobra após isso para nosso consumo?
Índices mostram que a renda disponível para consumo do cidadão médio atingiu o menor nível dos últimos quinze anos. Em fevereiro passado, a sobra de orçamento familiar do brasileiro caiu dos quase 24% em 2024 para 21% neste ano de 2026. Num primeiro momento, parece pouco, mas essa queda corresponde a bilhões de reais a menos em circulação, em especial para ‘investimentos’ em lazer, roupas, viagens, e gastos cotidianos.
Em que pese os números de aquecimento do mercado de trabalho, a verdade é que o ganho salarial realmente está estagnado – quando não em declínio, tanto pelo endividamento de famílias quanto pelos altos juros do mercado, passando ainda pela inflação camuflada que se vê no dia-a-dia. Estudos apontam que o endividamento das famílias brasileiras (em números recordes este ano) chega a quase 50%, que destinam sua renda para honrar o principal e juros de dívidas.
Nem quero entrar na questão nociva que os jogos de azar – através da famosas e difundidas “bets” – estão ocasionando nas estruturas de famílias país afora, que no afã de ganhar algo, pelo vício no jogo acabam por se enforcar em seus compromissos orçamentários… Mas paralelo a isso, temos um juro oficial nos 14,75% da Selic, que faz com que o custo do crédito dispare, obrigando famílias a se comprometer com cartões de crédito e cheque especial. Quanto a inflação em si, aqueles que como eu frequentam o mercado, sabem muito bem que as cifras e percentuais ditadas na imprensa pelo governo não condizem com a realidade que encontramos nas gôndolas e balcões de supermercados!
Mesmo sob o discurso de estar “controlada”, a inflação existe sim, e seus reflexos nos itens essenciais de sobrevivência como energia, aluguel e alimentação, comem parte significativa dos orçamentos domésticos. Mas índices e discursos oficiais não são confiáveis quando se ouve a voz do povo: isso porque quase 60% da população considera sua renda insuficiente para sequer arcar com as despesas triviais.
Muitos desses buscaram outras formas e alternativas de renda para fechar os custos de seus compromissos. Quando lemos, e principalmente vemos no nosso cotidiano a aplicação prática dessa situação, me questiono a que servirá a redução de jornada, se o trabalhador parece não ter condições sequer de sobreviver com seu salário aos compromissos corriqueiros, e que dirá do lazer e curtição da família que o legislador pretende ver na prática.
Por outro lado, mesmo considerando baixos índices de desemprego (ao menos é o que o governo diz), a verdade é que o salário dos trabalhadores e seu poder de compra, não tem acompanhado o custo de vida alto que se impõe a todos. Importante lembrar que se a população não tem condição de gastar além daquilo que lhe é importante e essencial, o comprometimento de segmentos como o setor de serviços e o próprio comércio ficam comprometidos, sujeitos a uma estagnação que virá a aumentar o risco de baixo crescimento econômico.
Enfim, temos alguns dias para o final do quarto mês do 26º ano deste século XXI ! Como estará nosso saldo bancário?


